quarta-feira, 6 de maio de 2015

Dificuldades e Prazeres

Ainda a pouco estava junto à minha noiva assistindo a um programa de televisão chamado "Quilos Mortais". De início tal título me soou um tanto sensacionalista, entretanto ao assistir o programa tive determinadas impressões e sensações que muito me surpreenderam. 
Em resumo o programa trata de casos de obesidade extrema, onde as pessoas têm cerca de 300kg e, através de uma cirurgia bariátrica, retomam o controle de sua saúde e de suas vidas. Nesta perspectiva há de se pensar que após a cirurgia os desafios para emagrecer se farão um tanto menos complexos do que antes, visto que o seu próprio corpo (e mente) se encarregará de fazer o trabalho. Entretanto, ao enfrentar uma trajetória dessas, estas pessoas se deparam com inimigos comuns a todos os demais semelhantes. Elenquei aqui, três exemplos de tais inimigos ou "demônios" que lutamos frequentemente e que muito me chamou a atenção em tal programa.

  • O primeiro deles remete à situação onde a esposa, após deixar de ser dependente do marido para fazer coisas "simples", como tomar um banho ou ir ao banheiro, ou, até mesmo, caminhar - por conta obviamente do excesso de peso - têm de terminar seu relacionamento, pois o seu companheiro não consegue digerir o fato de ela tornar-se uma mulher independente. 

Em situações "normais", o marido - ao meu ver - ficaria feliz em ver o desenvolvimento e a superação da esposa nas mais simplórias tarefas cotidianas. Neste viés, o mesmo deveria inferir que levaria uma vida mais ativa em todos os aspectos. Mas não, a relação de dominação e/ou dependência falou mais alto. E, nesta perspectiva, entramos numa seara que culmina no próprio significado do amor. Certo que o amor pode ser egoísta, como, por exemplo, não querer perder um ente querido por mais que o mesmo esteja no leito de morte. Na verdade, acho que isso se chama esperança. É a ideia fixa de que mesmo que a morte de tal pessoa querida seja certa, ainda temos um fio tenaz de esperança de que toda aquela atribulação acabe e a cura chegue. No caso destacado, o marido não soube lidar com a transformação da esposa e por isso a relação findou. Cada um com seus motivos, mas é certo que tanto ele quanto ela não se prepararam psicologicamente para uma transformação de tal proporção. E na nossa vida as transformações podem chegar de todas as frentes e nos mais variados momentos. Nós estaremos sempre preparados? Talvez não. Entretanto, é preciso que estejamos no mínimo conscientes de que a mudança virá, pois nós temos consciência dos nossos atos e atitudes e cada um deles acarretará consequências (transformações, mudanças) para a nossa trajetória de vida. Vamos ao segundo caso.

  • Uma mulher acima dos 40 anos, casada e com uma filha de 10 anos. Por conta do excesso de peso perdeu boa parte do desenvolvimento da filha e tomou forças de tal situação para se transformar. Assim o fez. Entretanto, está enfrentando um grave problema no casamento, visto que seu marido não quer que ela emagreça. O casamento findou, pois no momento da escolha entre salvar o casamento e salvar a sua saúde, a segunda opção entrou em voga.
Neste caso quero ressaltar o quanto as relações estão fragilizadas pelos fenótipos inerentes aos nossos olhos. Esta situação é bem atípica, pois o que vemos no mundo atual são pessoas que buscam um padrão de beleza totalmente diferente da obesidade. Mas tal marido sentia desejo pela sua esposa, estando ela naquela situação, pesando cerca de 270 kg. De ambas as formas os relacionamentos acabam porque o interesse passou a ser superficial. Obviamente desejo, prazer são de suma importância, mas não são tudo no quesito amor. Até porque a beleza além de relativa é passageira. Chega um determinado momento que ela não mais é tão importante na relação, pois o prazer já não é mais sexual. Chega um momento em que o prazer está apenas no apoio, na compreensão, no toque, no respirar e no olhar. Contudo, esse prazer deveria fazer parte de toda a nossa caminhada e não somente na velhice. O amor vai além das fronteiras corpóreas, vai além das fronteiras territoriais. 
  • O terceiro e último caso remete a ambas as mulheres que se mantiveram no foco e conseguiram eliminar grandes percentuais de gordura, estão levando uma vida mais saudável e fazendo atividades que jamais pensariam em fazer. Ao subirem na balança nas consultas rotineiras com os seus médicos o sorriso é marca registrada, pois se veem como verdadeiras vencedoras. Mulheres que deixaram o estado "vegetativo" e renasceram para uma nova maneira de viver. 
Todas as mudanças vêm acompanhadas do medo. Medo do que está por vir, medo dos obstáculos, medo do que será. E, certamente, nem sempre as mudanças serão boas. Mas o que nos move é essa sede por fazer algo diferente, porém igual, todos os dias - superar a nós mesmos. Essa é a nossa gasolina. Seja no trabalho, seja nos estudos, na faculdade, na nossa casa. Qualquer tipo de atividade que façamos, contanto que ela nos surpreenda no quesito superação, nos estimula à mudança. Os esportistas fazem isso a todo momento, as donas de casa também, as mães, os pais, a família todos precisamos fazer isso. Se não a nossa alegria de viver se perde com a monotonia de uma vida sem sentido. Portanto observe as pequenas coisas as quais você já superou e reveja quantos passos você teve que dar para chegar onde está. Quantos caminhos tomou, quantas direções foram erradas, quantas decisões, quantos abraços, beijos, quantos relacionamentos etc. Só não se esqueça de visualizar tudo isso sob o aspecto do amor. Pois dessa maneira é possível ter uma auto-avaliação muito mais complexa, entretanto muito mais completa. 

Carpe Diem!  

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